quarta-feira, 18 de maio de 2016

Sobre estar "só"

Diante de um apanhado de memórias sobre experiências frustradas, tenho me perguntado se é fraqueza ou virtude ter chegado à conclusão de que o melhor a fazer é não gerar qualquer expectativa sobre relacionamentos na perspectiva afetivo-sexual. Em termos práticos, pretendo exercer os mesmos papéis sociais de sempre: o estudante de antropologia, o filho, o irmão, o amigo; a revolução no modo de pensar e agir, no entanto, é muito mais interna. 

Fazendo um paralelo sobre a escolha de, por ora, não querer me envolver com ninguém e outras que fiz na vida como quando decidi, há quatro anos, parar de tomar refrigerante ou quando parei de comer carne. Em ambas, me mantive firme, abrindo algumas exceções em situações muito específicas. Acho pertinente citá-las: elas envolvem momentos relacionados à antropologia em que não abrir mão desses tipos de escolha numa outra estrutura social onde a relação com os alimentos se dá de forma diferente, pode soar como coercitivo ou impositivo. Não me sinto capaz de negar o peixe que um pescador artesanal me ofereça, por exemplo. Acho que, de alguma forma, então, iniciei uma caminhada em que descartar aquilo que nos é desnecessário ou que não nos engrandece tornou-se um caminho viável na busca pela paz de espírito. Esse texto é, portanto, uma vão exercício nessa busca. No momento em que o escrevi pela primeira vez, eu estava no sertão sergipano, com contato mínimo com as redes sociais e os aplicativos; em seu lugar, estabeleci um contato próximo com animais, plantas, a força dos sertanejos, o Rio São Francisco; de certa forma tudo isso me fez perceber o quão falsa é a necessidade de "estar com alguém". Quando tirei a carne e o refrigerante da minha vida, em nenhum momento neguei o saboroso prazer de consumi-los e acho que é dessa forma que eu tenho encarado o sexo: como algo delicioso, mas não essencial. É necessário fazer o adendo de que afirmar isso não me aproxima em nada da figura do assexual (a pauta dos assexuais é algo de fato diferente, mas não me sinto capaz de opinar), categoria pela qual tenho bastante respeito.

 A questão é que desistir de me relacionar (ao menos provisoriamente) é muito mais por cansaço que por vontade genuína. Minha condição de preto e gordo, na eterna linha tênue entre ser preterido e fetichizado, me fez desenvolver uma insegurança tão grande que faz com que haja um abismo de distância entre pensar na possibilidade de estar com alguém de forma duradoura e olhar para grande parte das minhas experiências afetivo-sexuais. De forma alguma vou generalizar tais experiências; no grande hall da memória, recordo de momentos e pessoas realmente fantásticas com quem mantenho forte amizade até hoje; coincidentemente ou não, no entanto, grande parte (se não a maioria) dessas histórias foi com pessoas não brancas. Absolutamente, não estou me eximindo da "culpa" de ter reproduzido, por ventura, comportamentos e valores que possam configurar um relacionamento abusivo; acho que, mesmo sem perceber na época, me aproveitei de fraquezas, carências, enfim, da assimetria que caracterizou parte desses relacionamentos; fica aqui minha autocrítica e a perspectiva de ser alguém diferente daqui em diante. 

O cansaço de "investir numa relação", "tentar fazer com que as coisas fluam naturalmente" e etc se dá por duas vias: a insegurança e a impaciência. Não são vias estanques e isoladas, mas elas acabam se comunicando frequentemente. Elas precisam ser entendidas com um que de historicidade; comigo a insegurança funciona da seguinte forma: há no mundo 7 bilhões de pessoas e se hipoteticamente (uma hipótese esdruxulamente absurda, diga-se de passagem) listássemos todas elas ordenando por ranking de "pessoas interessantes", eu me veria como o último da lista. Há uma peculiaridade sobre essa lista: ela aparece quase que de forma automática quando justamente começo a me relacionar com o outro, seja esse outro quem for: colegas do mestrado, companheiros de banda, familiares, amigos, etc. Ser único biólogo entre cientistas sociais; ser um multi-instrumentista/vocalista medíocre, se comparado aos vários artistas exemplares que me rodeiam; ser um péssimo jogador de LoL (League of Legends); tudo isso faz gerar a maldita lista do ranking, mas ao menos nessas relações ela é muito efêmera e some rapidamente. Nesses casos, basta um elogio para que eu me sinta confortável e consiga me sentir aceito entre os outros, trocando a perspectiva "eu/eles" pela do "nós". 

O problema, no entanto, aparece quando as relações ganham a conotação afetivo-sexual. Quando me vejo interessado por alguém, a força dessa lista é surpreendente; sou, então, tomado por uma insegurança que é maior que eu; ela é sistêmica, estrutural, ela foi historicamente construída desde que foi dito aos meus ancestrais que o seu cabelo era ruim, que seu nariz era de porco ou de panela; foi construída em mim desde que me foi ensinado que eu nunca seria bonito como os meus irmãos e seus traços "mais finos" ou a pele mais clara, que eu sou o simpático enquanto eles são os bonitos. Aprendi na minha adolescência que eu estava no corpo inadequado, que eu precisava me esforçar em dobro pra ser um cara legal porque com muita sorte eu poderia achar alguém que não ligasse pra esse lance de beleza exterior e aceitasse a pessoa linda que eu sou (por dentro). Isso era constantemente reforçado quando eu ia nas festas e só os meus amigos brancos e magros se davam bem na arte da paquera, nas inúmeras vezes que fui rejeitado por garotas/os que me achavam nerd demais, gordo demais, estranho demais.

O empoderamento sobre o meu corpo, já na fase adulta, diga-se de passagem, permitiu que eu vivesse minha sexualidade de maneira "livre" e por algum tempo, caí na ilusão de que uma vida sexualmente ativa me livraria de todos os fantasmas criados por uma adolescência solitária. A questão de vivenciar o sexo e a sexualidade de forma um tanto mais constante por um tempo deu um up na minha autoestima, pois me "livrou" dos fantasmas do preterimento. O que eu não contava, no entanto, era que o preterimento por vezes mostra uma face igualmente sombria: a fetichização. É importante dizer que meu lugar de fala (meu ponto de partida) é da realidade de um preto e gordo, mas reconheço que esse debate perpassa outrxs sujeitxs: asiáticxs, indígenas, etc. De assexuado, passei então a ser o urso preto, o nordestino fogoso, o cara com um bom papo com quem é ótimo passar uma noite (porque somos mais que uma trepada, afinal), mas não uma vida; tais experiências me conduziram ao pensamento que com tantas pessoas mais bonitas e interessantes, não seria de bom tom construir uma história com alguém como eu. 

Toda essa insegurança me levou a uma impaciência de tal forma que estar confortável na minha concha sem fluxo de entrada ou saída tem sido minha melhor opção. Além dos traumas de não ter experienciado relações duradouras, minha condição de bissexual, preto, gordo, nordestino me coloca numa posição em que estar num relacionamento é necessariamente um ato político afirmativo e, em tempos de ódio, ganha uma conotação revolucionária. Carregar esse peso me dá tamanho pavor e a vontade que tenho é a de ficar exatamente onde estou: na minha, curtindo outros tipos de relações. A postura adotada pelo outro é o tipo de situação que foge do meu controle e não tenho me sentido com força o suficiente para, por exemplo, exigir dele/a a compreensão, por via das bases históricas, do meu ciúme, da minha baixa autoestima, da minha insegurança. É uma impaciência por saber que por mais apaixonado e bem intencionado que seja o outro, se ele for um cara branco, por exemplo, vai existir um um constante julgamento alheio de que ele poderia estar com alguém no mesmo nível (de beleza); a última leitura que farão é a de que se trata de um casal e nisso entra a questão do assédio de outras pessoas e etc. Nesse ponto, cabe puxar da memória a vez em que estive numa festa com um grande amigo branco cis hétero que segue todos os padrões de beleza possíveis, onde a maioria do público era gay (masculino mesmo) e, por mais que não fôssemos um casal, nós estávamos interagindo e conversando só entre nós mesmos durante um longo tempo na festa; nessa ocasião, as pessoas sequer pediam licença para abordá-lo e davam em cima descaradamente como se eu fosse invisível (foi exatamente assim que me senti nesse dia); essa festa foi um marco no sentido de que, o fato de ele ter sido abordado inúmeras vezes e eu nenhuma é algo já bastante sintomático e que acaba com a minha autoestima, mas sobre as pessoas não respeitarem a possibilidade de sermos um casal porque no imaginário, ao menos dos gays universitários de São Carlos, parece impossível que um cara loiro e malhado possa namorar/ficar com um baixinho, preto, gordo e nordestino. Acho que foi a primeira vez que me dei conta do racismo em termos de estrutura. No caso de me relacionar com uma menina, manteria a eterna insegurança de não ser "homem o suficiente" (e nesse caso ela também seria cobrada) por ter me relacionado com outros homens e no caso de um outro não branco, por sua vez, seja numa relação afrocentrada ou interracial com alguém amarelo, marrom, vermelho, etc, há um cansaço que é muito menor, mas ainda assim me angustia pensar em termos de combate constante aos estereótipos, pois é isso que fazem com corpos não brancos, magros, cis, etc. 
Enfim, não consigo entender por que me permiti por tanto tempo me deixar levar por essa necessidade compulsória de estar com alguém. Estar sozinho tem sido necessário para entrar em contato com aspectos da minha personalidade que têm me ajudado a engrandecer. Estar com família e amigos tem sido prazeroso o suficiente para alimentar o vazio que, por ventura, a solidão, mesmo que escolhida, pode causar. Descobrir a minha própria força tem sido uma experiência indescritível. 

Algo interessante que aconteceu quando publiquei a primeira versão desse texto foi receber o feedback de vários tipos de pessoas que de alguma forma se sentiram representadas. Jamais contestarei o sentimento dessas pessoas. Acho que se o meu lugar de fala pôde traçar um paralelo com outras vivências, só tenho que me sentir honrado e foi um prazer poder ser sensível a outras realidades (inclusive de pessoas que apresentam privilégios com relação a mim, tipo caras brancos do sudeste). No fim das contas, esse é um apelo pra que a gente consiga pautar politicamente a solidão e seus desdobramentos nos diferentes sujeitos. "Ou soma ou some" é o que dizem e acho que me contempla. Não tô a fim de trepada casual nem de mendigar afeto. Se estar acompanhado de pessoas incríveis despido de interesse sexual é considerado estar só, estar "só" é uma benção!

#pretoegordo

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Lindo e fabuloso sim, narcisista jamé!

É com muita endorfina no sangue que começo esse post. Depois de um tempo sem escrever, eis que me peguei refletindo sobre algumas incoerências do nosso tão amado cotidiano. Aos quase trinta, depois de uma vida inteira fugindo de atividades físicas de qualquer natureza, decidi começar a malhar! Levantar peso, passar uns bons minutos em esteiras e bicicletas ao som de insuportáveis e estridentes músicas pop – em suas piores versões remixadas, exibicionismos, diálogos resumidos a “força, fé, foco” e “Deus no comando”, controle sobre o que e o quanto se come, muitas frases de auto-ajuda, etc me fizeram tornar um cara fútil, de performance egocentrada e narcisista! Será?

Embora esse texto se aplique a vários aspectos da minha vida, gostaria de fazer o recorte exclusivamente para o universo LGBT (ou seria GGGG?)*. Em minhas atividades cotidianas, sinto olhares de aprovação quando apareço com alguns quilos a menos e certo desdém por algumas pessoas (algumas magras, inclusive) quando digo que entrei na academia. Em aplicativos de pegação, aquele mar de mamilos e abdomes sarados, cansei de ser ignorado por caras que colocam em sua descrição que procuram por educação e um bom papo. Além desses elementos, há uma cultura generalizada de que marombeiros são fúteis. O engraçado é que, como foi bem colocado por Fabrício Longo em seu texto “Querido gay bonito, para que tá feio”, é esse tipo de sujeito fútil que temos endeusado na pornografia, nos aplicativos, nas redes sociais, etc. Ora, que tipo de práticas temos reproduzido? Somos sedentos por educação e bom papo, desde que eles sejam acompanhados de uma barriga de um tanquinho que foi obtida “naturalmente” (já que esforçar-se por ele em academias é fútil)? É refletindo sobre essa hipocrisia que pretendo desenvolver esse pequeno desabafo.

Fiquei tristemente surpreso quando soube que um amigo que cultivava há um tempo um lindo cabelo crespo precisou cortá-lo por dificuldades para arrumar um trampo. Por mais que se tenha um movimento de auto-aceitação crescente sobre a nossa negritude, às vezes o nosso empoderamento é boicotado por um sistema que ainda é racista. Numa situação similar, por mais que eu esteja bem resolvido com o meu sobrepeso, e, nesse sentido, quero deixar evidente que não tenho pretensão alguma de deixar de ser gordo, a cobrança anti-sedentarismo quando se é gordo beira o insuportável. Já li vários relatos de pessoas que andam com exames dentro de bolsos e bolsas para rebater o constrangimento causado por uma gordofobia disfarçada de “preocupação com a saúde”. Acho válido destacar também que um dos motivos pelos quais sempre evitei atividades físicas foi o total sentimento de inadequação por ser corpulento demais para acompanhar o ritmo frenético das competições escolares (porque não, não se tratavam de espaços recreativos, mas de formações de mini-atletas a duras penas). Dessa forma retrocedi tanto que acabei me acostumando à condição de gordo, sedentário e que “pelo menos” joga bem alguns games eletrônicos.

A opção de, agora, me dedicar aos exercícios físicos se deu muito mais por uma questão de saúde (em seu conceito amplo), pois tem me ajudado a lidar melhor com a minha ansiedade; com uma dorzinha chata na coluna que era bem frequente, pois passo longas horas do dia escrevendo e lendo; além de ter ajudado no meu humor e me fazer sentir bem comigo mesmo. É engraçado como, na era das certezas compartilhadas na internet, determinadas situações passam a ser universalizantes e não se tem preocupação alguma em fazer recortes específicos: se abusa das academias e selfies, é narcisista. Nessa lógica, há algum tempo adotei a postura de evitar dar “likes” nas redes sociais em selfies triviais (entendendo triviais como: uma selfie que evidencia apenas a pessoa sem apresentar nada de novo como um corte de cabelo, um lugar ou atividade bacana, etc) daqueles gays que se enquadram no padrão hegemônico de beleza, pois não acho pedagógico reafirmar essa posição. Desde pequenos eles têm a certeza de que são belos e reafirmar isso, em minha modesta análise, traz consequências desastrosas pro nosso universo: um ego inflado que esmaga os desviantes.

Força, fé, foco! =D
Ironicamente, já fui chamado de narcisista por postar as tais selfies triviais do tipo "partiu academia"; “começando os trabalhos”; “estou com preguiça”, etc. Encarar essas situações (e sujeitos) como equivalentes é no mínimo desonesto. Ora, se isso é ser narcisista, acho que me perdi nos conceitos. O que algumas pessoas enxergam como narcisismo, enxergo como uma ação afirmativa a nível individual. Não é à toa que páginas como Preta e Gorda, Bicha Nagô, PretoGay; a conta no instagram Negros e Lindos; além de diversos tumblrs têm obtido algum êxito ao atingir diversos seguidores que se sentem atraídos e representados por esses espaços (além de eles mesmos serem modelos por vezes). Criar espaços alternativos numa rede hegemonizada pela ditadura branca e magra não é narcisismo, mas a afirmação da nossa beleza, não importando quais formas ela adquire.

Diante disso, temos um cenário ditado por brancos e magros que nos cobram a execução atividades físicas e, se, a duras penas, as fazemos, nos hostilizam. Tenho, então, um breve aviso a dar: não tenho pretensão alguma de desvalorizar as minhas curvas, elas são parte de mim e eu as amo. Quero apenas modelá-las de uma forma que me agradem mais (meu corpo minhas regras e talz hehehe). Isso reforça a minha certeza de que sou lindo e fabuloso embora exista um padrão estético tentando me convencer do contrário.

#pretoegordo



*Em breve um texto mais elaborado sobre a questão estética e a militância

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

O que as babás Ângela e Tayane têm a ensinar sobre brancos redentores e paladinos dos oprimidos

Ontem ao me deparar com uma polêmica envolvendo as atrizes Fernanda Lima e Tatiana Godoi, achei que seria interessante pontuar algumas coisas da militância nossa de cada dia.

A polêmica se deu devido a uma postagem da atriz branca em seu instagram pondo fotos das babás dos seus filhos gêmeos como uma maneira de enaltecer o estilo das meninas, que são negras e filhas adotivas de uma amiga, alegando que na casa dela babás são livres para serem "estilosas" e não são obrigadas a usar a farda branca de babá. Imediatamente seguidores e a atriz negra Tatiana Godoi (que já se envolveu em outra polêmica com o autor de novela Walcyr Carrasco), retrucou: "O mais triste desse país não é o fato de estarem vestidas de branco ou não, é o fato de sempre vermos pelo passado escravocrata esse tipo de foto, a sinhá branca falando: 'olha, minhas negras não vivem na senzala, são da casa!'. Pode até tratar bem, mas infelizmente elas sempre serão as babás e a sinhá sempre será a boazinha tipo Princesa Isabel. Um dia, neste país, ainda vamos ver os negros no poder e não só subalternos como essa foto #prontofalei." Após as críticas, Fernanda Lima alegou que as meninas fazem as refeições junto à família e que as contratou pois "o trabalho de babá é digno e, embora difícil, pode ser rentável". A repercussão de tal polêmica rendeu todo tipo de texto de crítica na internet e achei que, na condição de preto, não podia deixar de me posicionar. 

Fernanda Lima em papel de destaque, "só porque ela é branquinha"
É importante lembrar que não é a primeira vez que Fernanda Lima dá esse tipo de mancada, só por ela ser "branquinha". Falando sobre a foto em si, não interpretei como racista nem mal intencionada. É importante problematizar, no entanto, esse tipo de postagem, as críticas que temos feito a elas e a repercussão dessas críticas. Se por um lado, tenho tido agonia da perspectiva radical dos movimentos das diversas categorias, com exaltações, ao meu ver, equívocas de pontos como "roubo de protagonismo", "legitimidade de fala", por outro, as respostas da atriz branca às críticas geralmente são péssimas.

Tenho percebido o webativismo como bem problemático no sentido de apontar indivíduos como culpados das opressões e não um sistema. Acho complicado dizer que Fernanda Lima e o marido foram racistas. Vejam bem, não quero isentá-los de "culpa" nem relativizar comportamentos que, embora muitas vezes não intencionais, são graves. As pessoas reproduzem várias opressões e é papel nosso, enquanto (web)militantes apontar quando elas as estiverem reproduzindo. Apontar o dedo na cara da atriz e chamá-la de racista é no mínimo problemático por algumas razões. Gostaria de citar um caso parecido com a cantora Mallu Magalhães, quando seu relacionamento foi apontado como abusivo por algumas webfeministas baseando-se apenas uma foto em que a cantora aparece com o seu namorado, que é mais velho, o também cantor Marcelo Camelo. A feminista Marjorie Rodrigues em seu blog atentou para o "detalhe" de que em nenhum momento consultaram Mallu pra falar sobre o relacionamento que é DELA e que, mais grave ainda, propositalmente omitiram que na foto a cantora aparecia espontaneamente sorrindo (pois é, sor-rin-do).

Ângela (à esquerda) e Tayane (à direita)
Cito essa história porque da mesma maneira, as críticas a Fernanda Lima foram feitas sem consultar as babás Ângela e Tayane. Qual a gravidade disso? Ora, estamos partindo do pressuposto de que elas são alienadas ou que não têm nenhuma consciência de sua negritude? Elas são frágeis meninas negras esperando para serem salvas pela militância negra que eliminará toda a alienação? O problema, ao meu ver, é que por vezes nos colocamos como os paladinos capazes de "desoprimir os oprimidos". Essa perspectiva nunca foi muito a minha praia. Não falo para silenciarmos diante de tantas opressões, mas para gritar por igualdade é necessário refletir sobre as táticas necessárias, pois a política é um jogo e a superação do racismo é a estratégia a ser alcançada. Se pensamos o racismo como sistema estruturante pelo qual devemos lutar contra, é importante ter em mente que essa é uma tarefa de todxs nós! Pretos, pardos, amarelos e até dos brancos. Para isso, precisamos do protagonismo dos oprimidos e do apoio dos privilegiados.

Estarmos cientes da nossa condição de pretxs e tentarmos cada vez mais empoderarmos nossxs irmãos, irmãs, irmxs... é uma tarefa cotidiana que exige, sobretudo, mapearmos quem são os nossos aliados e inimigos nessa luta. A partir do momento que isso não está bem definido, podemos meter os pés pelas mãos, nos fechando em nós mesmos e perdendo a capacidade de diálogo com setores que são essenciais, como por exemplo pessoas brancas que podem se colocar como nossas apoiadoras. Em nenhum momento estou dizendo que é o caso da atriz, mas não ouso afirmar que não seja. Simplesmente não sabemos porque preferimos ataques a problematizações; preferimos  nos cegar em nossas próprias conclusões cheias de certezas a estabelecermos um diálogo. Precisamos deixar evidente que o apoio das pessoas privilegiadas requer que elas tenham a capacidade de baixar a bola a partir do momento que se reconhecem como tal. 

 Em minha humilde leitura dos fatos, a grande questão é que a foto deve ser problematizada pois reitera a lógica de princesa Isabel como "a boazinha porque assinou a lei áurea".
A própria mãe adotiva (achei conveniente expor essa informação) das meninas (e de mais 53 filhos) ironizou a polêmica chamando Fernanda Lima de "Bendita Sinhá", pois deu uma oportunidade digna de emprego para as jovens negras. Até aí, nada de novo no front. Nada mais silenciador de protagonismo que a lógica burguesa da caridade, afinal, melhor que as pobres meninas negras estejam num trabalho difícil, mas digno, do que estarem desempregadas e, vejam que fantástico, elas ATÉ têm suas individualidades respeitadas e são tratadas como seres humanos, pois sentam-se à mesa com a família branca e não precisam usar fardas. Sobre esse ponto, acho que a blogger Gabriela Moura no blog Não me Kahlo me contemplou ao escrever que A alienação de Fernanda é consequência da nossa história fraudada. Historicamente isso não é nenhuma novidade, foi assim desde o tempo dos escravos e da "abolição", como coloca a blogueira: 

Enquanto isso (repressão a manifestações de negritude) , crianças e adolescentes recém-libertas formavam parte do contingente de trabalhadoras domésticas. Alguns patrões entravam com pedido de tutela de menores – órfãos pobres -, tendo-os dentro de suas residências da maneira legal e institucionalizada, e fazendo-os trabalharem de maneira compulsória. O trabalho infantil feminino não remunerado foi facilitado por uma portaria imperial de 1835, e difundiu-se rapidamente por cidades como o Rio de Janeiro, onde era alimentada a tradição de que menores de 12 anos não poderiam solicitar um salário caso o patrão já arcasse com sua alimentação e vestimenta.

Estas criadas envelheciam sem nunca terem tido condição para manter uma poupança ou outra forma de economia financeira que lhes assegurasse uma velhice com condições mínimas de sustento, terminando em asilos ou abandonadas na rua. Esta situação as mantinha em miséria, permitindo a manutenção da pobreza daquela população.

E sobre a ideia de babá como membros da família em um trabalho "como outro qualquer":

(...) é falsa, ao passo que as relações familiares não abraçam realmente a empregada. O documentário “Doméstica”, de Gabriel Mascaro, deixou este relacionamento explícito. Ao mesmo tempo em que os patrões eram veementes na afirmação de que suas “ajudantes do lar” eram da família, a estas mulheres eram destinados os famigerados quartinhos dos fundos e a vida na periferia, bem longe das grandes casas. O programa Profissão Repórter, da Rede Globo, também abordou o tema recentemente, embarcando nas pautas sobre a PEC das Domésticas, que deixou o assunto em evidência. Na transmissão, uma mulher que trabalha como doméstica ganhando meio salário mínimo ouviu da entrevistadora a pergunta: Você gostaria de ganhar mais? O que faria com o dinheiro? A resposta: sim, para comprar as minhas coisas, comprar comida.

Então, estes estudos e abordagens deixam clara a necessidade de sairmos do lugar-comum quando usamos uma história única como exemplo para toda a condição trabalhista de um grupo.

Convenhamos, caros leitores, que a questão racial é algo que vai além da assinatura de uma lei por uma "branca redentora". Foi-nos propositalmente omitido que, mais importante que um papel assinado, foi o monte de gente preta (e vermelha) na resistência, lutando contra a opressão legitimada por um sistema, embora nos façam acreditar que o protagonismo não foi nosso. É importante frisar também que a Lei Áurea em nada beneficiou os negros, que foi meramente uma jogada política devido à crescente industrialização. Não precisa ser nenhum expert em história para lembrar que o sistema de escravidão não fazia mais sentido porque era necessário que os explorados fossem assalariados pra comprar os produtos industrializados, mas que a a ausência de vida digna dessas pessoas, antes escravas, agora operárias, continuou. Portanto, não há nada de heróico na assinatura da Lei Áurea e que colocar princesa Isabel como heróína é negar a resistência dos Quilombos, dos negros e indígenas que se colocaram na luta; ou seja: é um roubo (um assalto mesmo) do nosso protagonismo.

Sabendo de tudo isso, postar foto das babás, por mais bem intencionado que seja, é um reflexo dessa lógica de bondade da sinhá. Acho que o ponto central é problematizar por que as pessoas negras estão sempre em papéis subalternos e por que raios as pessoas brancas acham que merecem um biscoito por estarem sendo apenas humanas e tratando meus irmãos e irmãs com dignidade. Qual a necessidade de se vangloriar por que as babás não usam branco? É reforçar o estereótipo de branco redentor*? 

Faço o apelo para que nós, negros e apoiadores, consigamos entender a importância de saber como lançarmos as críticas para garantirmos menos desgaste, mais ganhos políticos e mais legitimidade. Meter os pés pelas mãos num momento de extrema ofensiva conservadora, considerando que estamos em extrema desvantagem na correlação de forças, pode ser desastroso na nossa luta.

#pretoegordo

*Vale a pena assistir para compreender o papel da Rede Globo (da qual Fernanda Lima faz parte, vale destacar) na construção da imagem do branco redentor: A negação do Brasil - O negro na telenovela brasileira (Joel Zito Araújo, 2000)





domingo, 19 de julho de 2015

Cara bicha branca, gosto muito da sua amizade, mas não quero que a gente confunda as coisas...

Após demonstrar afeto (confesso que de maneira excessiva) a um estimado amigo e companheiro (branco e lindo, diga-se de passagem) pelo qual nutro um grande carinho, ouvi essa frase. Confesso também que não foi a primeira vez que a ouvi e que nem só bicha branca me falou, mas "coincidentemente", todas essas pessoas apresentavam algum tipo de privilégio (seja a própria cor de pele, um cabelo liso, um abdome definido, etc...). Destaco a categoria "bicha branca" por ter acontecido muito mais frequentemente com elas e por uma clara (com o perdão do trocadilho) demarcação política.

Cara bicha branca, gostaria de demarcar que há algum tempo tenho evitado qualquer coisa na perspectiva afetivo-sexual com homens brancos porque, dentre outros fatores que envolvem o mar de privilégios no qual vocês confortavelmente nadam, vocês se demonstram frequentemente cheios de certezas. Sei que no seu imaginário o fato naturalizado de que vocês são obrigatoriamente um objeto de desejo e que, inseridos na cultura do desprezo, isso os coloca numa posição superior (na relação desejante x desejado), dificulta a compreensão de que pessoas que não seguem um padrão de beleza (que é branco, masculino, magro, etc) podem ser simplesmente afetuosas e não necessariamente desejantes no aspecto sexual.

A questão, cara amiga bicha branca, é que a "cultura moderninha"(na qual a cultura do desprezo que falei lá em cima se insere) na maneira de lidar com relacionamentos não contempla a minha negritude, entende? Como já abordei anteriormente nesse blog, eu acho válida qualquer forma de desconstrução , mas, como também já falei antes, são caminhos paralelos o que vocês, brancos, se utilizam e o que eu, negro, utilizo. Quando vou numa festinha e vejo uma galera se pegando sem compromisso, eu acho massa porque o que está sendo questionada ali é a lógica da monogamia compulsória, que é cruel e estruturante para o patriarcado.

A questão é que pra mim, preto,tais posturas nessas festas não apresentam nada de novo ou revolucionário, pasme! Sabe por que? A bicha preta sempre foi sinônimo do sexo fácil, do fetiche porque nos reduzem a um pauzão ou sei lá o que. A luta pela liberdade de pegar quem quiser só é válida pra vocês, brancos, logo, a preocupação com o "ser viado mas não ser promíscuo" e a ruptura com essa lógica perversa é uma regra exclusivamente sua, pois o que se espera da bicha preta é justamente a vulgaridade, o sexo sujo, a extra-conjugalidade, "ser a outra"e nos reduzirem à forma animalesca e viril do "pauzudo".

Creio que nenhuma dessas opiniões pessoais é novidade para leitorxs desse blog.

É nesse ponto que eu quero explicitar de forma mais evidente qual o meu "problema" com você, cara amiga bicha branca. Estamos necessariamente, estrutural e historicamente buscando coisas diferentes. Acho que a palavra chave para introduzir esse ponto é a tal da simetria. Peço licença (as usual hehehe) para contar um pouco de como compreendi minimamente a questão da simetria. Quando reflito sobre minhas relações afetivo-sexuais com homens brancos (com mulheres teve outra conotação), consigo perceber um "que" (eufemismo detected) de abuso sentimental que acabou demarcando precisamente qual, usualmente, o papel do homem negro nessas relações: a subjugação. Por outro lado, queria contar sobre uma relação bem bonita, embora passageira que tive no começo desse ano. Posso dizer que o fato de ele não ser branco foi bem importante na construção. Não foi uma experiência afrocentrada, mas interracial sem a participação branca, pois o menino em questão é amarelo. Uma das belezas dessa experiência foi o fato de termos conseguido enxergar as especificidades das situações não privilegiadas em que nos encontramos. Basicamente, enquanto eu sou preterido, ele é fetichizado. Era demasiadamente prazeroso, ao menos para mim, quando chegávamos nesse assunto.Ter sido sensível às especificidades dele me deixou alerta para algo que simplesmente não percebia: o "portador (cisgênero) de um pau" (tão veementemente valorizado "no meio") só é levado em conta quando ele é branco (fazendo o adendo de que no "universo gay" indígenas são inexistentes), caso contrário, são indivíduos sem identidade portadores de um pau grande ou pequeno.  Vários amigos quando souberam que eu tava ficando com o rapaz em questão automaticamente recorriam ao tamanho do pau com certo desdém e curiosidade. Nunca tinha me atentado até então que um gay asiático é sempre reduzido a um pinto pequeno e outros estereótipos bizarros. Posso garantir com toda a certeza de que o reconhecimento do meu parceiro como uma figura (ao menos potencialmente) oprimida deu um up na relação, ao menos nesse caso em que se tratava de pessoas lutando contra a imposição de uma hegemonia. Imagino que chegar a esse tipo de compreensão não seja algo tão fácil para você, cara amiga. Não porque você, bicha branca, seja (necessariamente) malvada, mas porque o seu privilégio lança uma nuvem de fumaça que dificulta a enxergar essa complexidade: o quanto nós, negros, somos carentes de representações positivas na mídia, nas escolas e, pasme, na própria militância; o quanto a nossa auto-estima é esmagada em aplicativos de pegação, nas baladas, etc, pelo simples fato de que a nossa imagem raramente é associada ao padrão desejado inclusive por você, amiga, que tende a justificar o seu racismo, misoginia, gordofobia, etc com uma "questão de gosto".

Admiro a sua desconstrução adotando a postura da pegação sem compromisso (sem ironias), mas acredite, há quem esteja cagando para essa postura, não por caretice, mas por escolha e até mesmo cansaço. Não sou careta, sou tão descolado que me permito expressar afetividade a ponto de você confundir as coisas (agora sim soou irônico, não?). Peço, no entanto, encarecidamente que não me confunda com seus branco. Não sou desses, não tenho como ser. Por favor, não me ache piegas quando eu te contar sobre meus sonhos de casar e constituir uma família, sabe por que? Pretos não casam. Se para você isso é tão óbvio quanto uma operação matemática simples, para nós, que estamos na categoria "bicha preta", isso soa um tanto distante da realidade por uma infinidade de motivos, sendo alguns deles citados nesse texto. Não excluo totalmente a possibilidade de me relacionar com homens brancos, pois acredito em caras capazes de respeitar a minha negritude (generalizações tendem a ser burras na minha humilde opinião). Mas até você me provar que é capaz de fazê-lo e estar ao meu lado no combate a essas opressões da qual você está historicamente e estruturalmente ileso, não ache que o meu afeto tem segundas intenções.

Por fim, estamos procurando por coisas diferentes, portanto não tem chance alguma de eu confundir as coisas. Aproveito para deixar claro que politicamente te quero ao meu lado, pois acho que os seus privilégios, a sua legitimidade, o espaço que você tem garantido podem ser utilizados de uma maneira muito positiva na nossa causa (negra). Será sempre um prazer te ter como apoiador. Falando agora sobre sentimentos, saiba que gosto muito da sua amizade e que cultivá-la significa convivência cotidiana com certas garantias como: respeitar meu espaço, minha luta, minha negritude! Não quero que a gente confunda as coisas... desejar algo além de amizade com quem tem a capacidade de formular esse tipo de pensamento é algo próximo de trair meus irmãos e primos de cor (sejam eles pretos, vermelhos ou amarelos) e, com todo o respeito: tô fora.

Beijos sem confusão e com muita luta!

#pretoegordo

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Confissões


Tudo que eu queria pra essa madrugada
Era acreditar no fim dessa angústia
No bom convívio com um corpo que,
Entre tantos corpos, ousou ser o meu
Tão inocentemente transgressor
Tão violentamente oprimido
Renegado do Olimpo
Tudo que eu queria pra essa madrugada
Era acreditar que toda essa angústia
É fruto de uma paranoia indigna de uma sociedade justa
Que meus ancestrais não foram explorados
Que sua auto estima não fora esmagada
Com o tacape da ditadura magra e branca
Com a arte do afogamento
Através do afago
Um rosto tão bonito...
Um corpo tão errado,
tão assimetricamente persistente


Tudo que eu queria pra essa madrugada
Era acreditar que há beleza no estranho
Tesão no grotesco
Em definições mais valorizadas que as do abdome
Que o nariz horizonte é tão belo quanto o adiante
Que o cabelo crescente ao norte é uma coroa natural
Digna das pálidas rainhas com cabelos crescentes ao sul
Que pra cada besta, existe um príncipe oculto
Visível até a olho nu
Por falar em nu...
Acreditar que cada corpo tem o direito de se expor
Pois tamanho não é mais documento
Pretos ou brancos, redondos ou retos,
Somos todos deliciosamente belos
Ardentemente desejos
Fatalmente humanos

*escrito em 14 de agosto de 2013
** pouco mudou de lá pra cá...


#pretoegordo







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sexta-feira, 8 de maio de 2015

Obesidade


Era compulsivo...
Seus lábios balbuciavam
Ao se perderem em delícias
Não havia gosto ruim
Não é e não há de ser ruim
Porque não há gosto ruim

Pois o paladar é essa fera domada
Essa cadela no cio
Em sua via única,
a da entrada
Mas, opa! O que entrou saiu?
E foi assim que pariu



Mas é de fome que falo!
De fome? Gordo só fala em comida...
Mas não é dessa fome!
Tô falando da fome ressaca
Ressaca e dor
Da fome chamada amor

Daquela fome que se tem no cio
Compulsiva fome que fez entrar
E jamais saiu
Porque não há de sair
E por isso jamais pariu

E de tanto amar,
explodiu!


#pretoegordo

segunda-feira, 4 de maio de 2015

O "amor livre" e a bicha preta

Após ler um maravilhoso texto de Gabriela Bacelar que circulou nas redes sociais chamado "A imposição do seu amor livre pra mim não é novidade" na página Blogueiras negras, tomei quase que um soco na boca do estômago, pois custei um tanto pra me perceber como um gay preto e gordo e que, portanto, esse papo de "amor livre" (propositalmente entre aspas) não tinha como me representar.

Basicamente, no texto, é defendida toda uma argumentação de como a pauta amplamente defendida na esquerda: o "amor livre" é bem seletiva no sentido racial. Enquanto as mulheres brancas tiveram sua liberdade sexual sancionada pelo perverso sistema patriarcal, as mulheres negras foram submetidas a todo tipo de abuso: moral, sexual, etc; e a imposição de um suposto "amor livre" sem a problematização de todo esse contexto histórico é, no mínimo, irresponsável. 

Primeiramente, quero deixar claro que parto e sempre partirei do pressuposto de que se não é livre, não é amor. Não discutirei, embora ache interessante, as definições e origens do amor, mas apenas o "amor livre" como um sistema alternativo e contra-hegemônico. Iniciei o texto citando a mulherada porque não tem como me olhar no espelho, reparar a cor da minha pele e não associá-la à cultura do estupro que estava presente desde a época dos senhores de engenho. Sou preto de pele mais clara e cabelo não cresco; minhas características físicas são frutos do estupro de várias mucamas, fato velado com o termo miscigenação. É dessa maneira que as mulheres negras até hoje são encaradas: como as outras, as não oficiais, "as nêga". 

Eu te desafio a me amar
Diana Blok
Na realidade das relações homoafetivas, não é de se espantar que elas tentem ao máximo se enquadrar dentro de um esquema heteronormativo, pois é essa a forma que, ainda que timidamente, goza de certa aceitação na sociedade burguesa. Nada mais natural que uma esquerda combativa propusesse a contra-hegemonia na maneira de relacionar-se. O problema é que a imposição dessas maneiras supostamente contra-hegemônicas de se amar, de se relacionar, etc, na prática acabam privilegiando a parte da sociedade que sempre foi privilegiada. 
Numa situação parecida à das mucamas, a bicha preta, sobretudo afeminada (sic.) nunca esteve no imaginário burguês como sujeito de uma relação monogâmica. Pelo contrário, a bicha preta será alvo de chacota, dentre outros fatores, pela sua "promiscuidade". O que exatamente quero dizer com isso?

A vivência de um gay branco, sobretudo masculinizado, é muito diferente da minha como negro 

Por maior que seja a onda conservadora, existe uma representatividade, insuficiente, mas bastante positiva, de casais homoafetivos  hoje em comerciais, filmes, telenovelas, etc. O grande problema está na pobreza (no sentido de pouca diversidade) dessas representações. Se os casais gays (masculinos e femininos) aparecem e, aos trancos e barrancos conseguem ser bem aceitos por pelo menos uma parte da sociedade, esses casais, na esmagadora maioria das vezes, apresentarão padrão eurocêntrico e heteronormativo, fazendo apenas um recorte gay para as famílias dos comerciais de margarina. Nada mais legítimo, então, que questionarmos esses modelos de família como únicos; eles não são, e defender a monogamia compulsória nunca será a minha pauta.

Sobre o que, exatamente, se trata esse texto então? Se os gays brancos chegaram num ponto em que podem questionar a monogamia, já que o modelo heteronormativo nas relações homoafetivas vêm ganhando aceitação, nós, negros, estamos num caminho paralelo (nunca oposto), lutando pelo direito de encarar a monogamia como uma das diversas formas possíveis de amor.

Entendendo o porquê do caminho paralelo

Nesse ponto, pedirei licença para contar um pouco da minha história. 

Minha condição de preto e gordo me conferiu a posição de preterido. Sempre! Era sempre eu que ficava sem pegar ninguém na balada porque, por uma questão de "gosto", as pessoas preferiam investir nos meus amigos brancos. E é aí onde a bicha preta é alocada: na fetichização, na hipersexualização e/ou no preterimento. Se tiver o pauzão, ela servirá como fonte descartável de prazer pro viado branco colonizador; se for afeminada, vai ser um depósito de esperma às escondidas, mas nunca a primeira opção. Voltarei a esse ponto algumas linhas abaixo.

Dadas as circunstâncias, nada mais natural, então, que eu queira reivindicar o meu lugar como protagonista nas relações que perpassam pelo meu corpo. Quero me sentir livre pra reivindicar o tipo de amor que me foi negado. O que a bicha branca de esquerda não consegue entender é que reivindicar essa forma de amor não é legitimar o mito do amor romântico. Pelo contrário, é querer estar no mesmo papel em que os brancos se encontram: capazes de problematizar sobre relações monogâmicas simétricas. Hoje entendo como liberdade conseguir superar uma opressão histórica que se deu sobre o meu corpo. Alcançá-la seria então, dentro da minha realidade, saber que meu parceiro superou essa lógica nojenta que esmaga a nossa auto-estima, que ele, dentre tantos corpos brancos e sarados, escolheu estar comigo! Aí sim, meu caro irmão da pele branca, eu diria que o amor é livre, sobretudo da subjugação às amarras estéticas e elitistas. Aí sim eu diria que o amor, na minha realidade, está isento de jogos de poderes e de assimetrias!

Se é pra debater o amor livre (sem aspas), caro irmão, façamos os recortes raciais. Já fui ingênuo de acreditar em relações abertas como modelos únicos de superação, hoje não caio mais nessa armadilha. Tenho refletido sobre as minhas experiências afetivo-sexuais com pessoas brancas e, sinceramente, a cultura da colonização perpassou todas essas relações; avalio que não teve nada (ou quase nada) de empoderador nessas experiências. Pelo contrário, elas me fizeram questionar:
Qual o meu problema?
Por que a maioria dessas experiências foram efêmeras?
Por que sou desinteressante o suficiente a ponto de não sustentar essas relações?
Reparem bem, caros leitores, que não estou falando necessariamente de namoro, mas de relações com um pouco mais de aprofundamento que (não tão) coincidentemente só aconteceram com outras pessoas não brancas. 

Eis que me surge a resposta: sou preto e gordo. No imaginário da bicha burguesa, quando se pensa em um parceiro, raramente ele carregará as minhas características físicas. No máximo eu posso despertar a curiosidade fruto de um fetiche baseado em estereótipos como: "negros têm o pau grande", "negros são mais quentes", "negros são fogosos"; ou "gordinhos são bons de cama", "gordinhos são mais carinhosos", etc.

O "amor livre" não é capaz de superar esses estigmas

Citando mais uma vez Gabriela Bacelar:

"Se a mulher negra tem ciúme é porque ela não se sente suficiente, se sente feia, se sente menos que seu próprio companheiro, e portanto são inseguras, tímidas, temerosas, e sentem-se sozinhas"

O ciúme é só vaidade?
Quer defender, caro irmão branco, a sua liberdade legítima de pegar geral? Acho ótimo (sem ironias). Só não queira chamar isso de amor livre. Querer universalizar o amor (nesses termos) é partir da premissa de que todos nós tivemos as mesmas oportunidades de vivenciá-lo. O nome disso é falsa simetria. Caso não tenha ficado claro, sou defensor do amor livre, aquele que é a base de sustentação para relações livres de poder, em que um relacionamento fechado pode muito bem se moldar, sem, de forma alguma legitimar a monogamia compulsória e o mito do amor romântico. Colocar-nos a nós, negros, em condições semelhantes às suas é desonesto, irmão. Sugiro que perceba os reflexos colonialistas de como construímos o nosso tesão, enxergue todos os privilégios que isso lhe confere e os problematize. "Amor livre" pautado e protagonizado por gente cis branca não é mera coincidência. Ai de um branco se ousar dizer que meu ciúme é sentimento de posse. Não se pode ter esse tipo de sentimento quando uma suposta forma hegemônica de amor está apenas no nosso imaginário, não no nosso cotidiano. Sua forma de pensar a liberdade não me representa!

Por fim, citarei
Diana Blok:

"Eu te desafio a me amar"

#pretoegordo