quarta-feira, 18 de maio de 2016

Sobre estar "só"

Diante de um apanhado de memórias sobre experiências frustradas, tenho me perguntado se é fraqueza ou virtude ter chegado à conclusão de que o melhor a fazer é não gerar qualquer expectativa sobre relacionamentos na perspectiva afetivo-sexual. Em termos práticos, pretendo exercer os mesmos papéis sociais de sempre: o estudante de antropologia, o filho, o irmão, o amigo; a revolução no modo de pensar e agir, no entanto, é muito mais interna. 

Fazendo um paralelo sobre a escolha de, por ora, não querer me envolver com ninguém e outras que fiz na vida como quando decidi, há quatro anos, parar de tomar refrigerante ou quando parei de comer carne. Em ambas, me mantive firme, abrindo algumas exceções em situações muito específicas. Acho pertinente citá-las: elas envolvem momentos relacionados à antropologia em que não abrir mão desses tipos de escolha numa outra estrutura social onde a relação com os alimentos se dá de forma diferente, pode soar como coercitivo ou impositivo. Não me sinto capaz de negar o peixe que um pescador artesanal me ofereça, por exemplo. Acho que, de alguma forma, então, iniciei uma caminhada em que descartar aquilo que nos é desnecessário ou que não nos engrandece tornou-se um caminho viável na busca pela paz de espírito. Esse texto é, portanto, uma vão exercício nessa busca. No momento em que o escrevi pela primeira vez, eu estava no sertão sergipano, com contato mínimo com as redes sociais e os aplicativos; em seu lugar, estabeleci um contato próximo com animais, plantas, a força dos sertanejos, o Rio São Francisco; de certa forma tudo isso me fez perceber o quão falsa é a necessidade de "estar com alguém". Quando tirei a carne e o refrigerante da minha vida, em nenhum momento neguei o saboroso prazer de consumi-los e acho que é dessa forma que eu tenho encarado o sexo: como algo delicioso, mas não essencial. É necessário fazer o adendo de que afirmar isso não me aproxima em nada da figura do assexual (a pauta dos assexuais é algo de fato diferente, mas não me sinto capaz de opinar), categoria pela qual tenho bastante respeito.

 A questão é que desistir de me relacionar (ao menos provisoriamente) é muito mais por cansaço que por vontade genuína. Minha condição de preto e gordo, na eterna linha tênue entre ser preterido e fetichizado, me fez desenvolver uma insegurança tão grande que faz com que haja um abismo de distância entre pensar na possibilidade de estar com alguém de forma duradoura e olhar para grande parte das minhas experiências afetivo-sexuais. De forma alguma vou generalizar tais experiências; no grande hall da memória, recordo de momentos e pessoas realmente fantásticas com quem mantenho forte amizade até hoje; coincidentemente ou não, no entanto, grande parte (se não a maioria) dessas histórias foi com pessoas não brancas. Absolutamente, não estou me eximindo da "culpa" de ter reproduzido, por ventura, comportamentos e valores que possam configurar um relacionamento abusivo; acho que, mesmo sem perceber na época, me aproveitei de fraquezas, carências, enfim, da assimetria que caracterizou parte desses relacionamentos; fica aqui minha autocrítica e a perspectiva de ser alguém diferente daqui em diante. 

O cansaço de "investir numa relação", "tentar fazer com que as coisas fluam naturalmente" e etc se dá por duas vias: a insegurança e a impaciência. Não são vias estanques e isoladas, mas elas acabam se comunicando frequentemente. Elas precisam ser entendidas com um que de historicidade; comigo a insegurança funciona da seguinte forma: há no mundo 7 bilhões de pessoas e se hipoteticamente (uma hipótese esdruxulamente absurda, diga-se de passagem) listássemos todas elas ordenando por ranking de "pessoas interessantes", eu me veria como o último da lista. Há uma peculiaridade sobre essa lista: ela aparece quase que de forma automática quando justamente começo a me relacionar com o outro, seja esse outro quem for: colegas do mestrado, companheiros de banda, familiares, amigos, etc. Ser único biólogo entre cientistas sociais; ser um multi-instrumentista/vocalista medíocre, se comparado aos vários artistas exemplares que me rodeiam; ser um péssimo jogador de LoL (League of Legends); tudo isso faz gerar a maldita lista do ranking, mas ao menos nessas relações ela é muito efêmera e some rapidamente. Nesses casos, basta um elogio para que eu me sinta confortável e consiga me sentir aceito entre os outros, trocando a perspectiva "eu/eles" pela do "nós". 

O problema, no entanto, aparece quando as relações ganham a conotação afetivo-sexual. Quando me vejo interessado por alguém, a força dessa lista é surpreendente; sou, então, tomado por uma insegurança que é maior que eu; ela é sistêmica, estrutural, ela foi historicamente construída desde que foi dito aos meus ancestrais que o seu cabelo era ruim, que seu nariz era de porco ou de panela; foi construída em mim desde que me foi ensinado que eu nunca seria bonito como os meus irmãos e seus traços "mais finos" ou a pele mais clara, que eu sou o simpático enquanto eles são os bonitos. Aprendi na minha adolescência que eu estava no corpo inadequado, que eu precisava me esforçar em dobro pra ser um cara legal porque com muita sorte eu poderia achar alguém que não ligasse pra esse lance de beleza exterior e aceitasse a pessoa linda que eu sou (por dentro). Isso era constantemente reforçado quando eu ia nas festas e só os meus amigos brancos e magros se davam bem na arte da paquera, nas inúmeras vezes que fui rejeitado por garotas/os que me achavam nerd demais, gordo demais, estranho demais.

O empoderamento sobre o meu corpo, já na fase adulta, diga-se de passagem, permitiu que eu vivesse minha sexualidade de maneira "livre" e por algum tempo, caí na ilusão de que uma vida sexualmente ativa me livraria de todos os fantasmas criados por uma adolescência solitária. A questão de vivenciar o sexo e a sexualidade de forma um tanto mais constante por um tempo deu um up na minha autoestima, pois me "livrou" dos fantasmas do preterimento. O que eu não contava, no entanto, era que o preterimento por vezes mostra uma face igualmente sombria: a fetichização. É importante dizer que meu lugar de fala (meu ponto de partida) é da realidade de um preto e gordo, mas reconheço que esse debate perpassa outrxs sujeitxs: asiáticxs, indígenas, etc. De assexuado, passei então a ser o urso preto, o nordestino fogoso, o cara com um bom papo com quem é ótimo passar uma noite (porque somos mais que uma trepada, afinal), mas não uma vida; tais experiências me conduziram ao pensamento que com tantas pessoas mais bonitas e interessantes, não seria de bom tom construir uma história com alguém como eu. 

Toda essa insegurança me levou a uma impaciência de tal forma que estar confortável na minha concha sem fluxo de entrada ou saída tem sido minha melhor opção. Além dos traumas de não ter experienciado relações duradouras, minha condição de bissexual, preto, gordo, nordestino me coloca numa posição em que estar num relacionamento é necessariamente um ato político afirmativo e, em tempos de ódio, ganha uma conotação revolucionária. Carregar esse peso me dá tamanho pavor e a vontade que tenho é a de ficar exatamente onde estou: na minha, curtindo outros tipos de relações. A postura adotada pelo outro é o tipo de situação que foge do meu controle e não tenho me sentido com força o suficiente para, por exemplo, exigir dele/a a compreensão, por via das bases históricas, do meu ciúme, da minha baixa autoestima, da minha insegurança. É uma impaciência por saber que por mais apaixonado e bem intencionado que seja o outro, se ele for um cara branco, por exemplo, vai existir um um constante julgamento alheio de que ele poderia estar com alguém no mesmo nível (de beleza); a última leitura que farão é a de que se trata de um casal e nisso entra a questão do assédio de outras pessoas e etc. Nesse ponto, cabe puxar da memória a vez em que estive numa festa com um grande amigo branco cis hétero que segue todos os padrões de beleza possíveis, onde a maioria do público era gay (masculino mesmo) e, por mais que não fôssemos um casal, nós estávamos interagindo e conversando só entre nós mesmos durante um longo tempo na festa; nessa ocasião, as pessoas sequer pediam licença para abordá-lo e davam em cima descaradamente como se eu fosse invisível (foi exatamente assim que me senti nesse dia); essa festa foi um marco no sentido de que, o fato de ele ter sido abordado inúmeras vezes e eu nenhuma é algo já bastante sintomático e que acaba com a minha autoestima, mas sobre as pessoas não respeitarem a possibilidade de sermos um casal porque no imaginário, ao menos dos gays universitários de São Carlos, parece impossível que um cara loiro e malhado possa namorar/ficar com um baixinho, preto, gordo e nordestino. Acho que foi a primeira vez que me dei conta do racismo em termos de estrutura. No caso de me relacionar com uma menina, manteria a eterna insegurança de não ser "homem o suficiente" (e nesse caso ela também seria cobrada) por ter me relacionado com outros homens e no caso de um outro não branco, por sua vez, seja numa relação afrocentrada ou interracial com alguém amarelo, marrom, vermelho, etc, há um cansaço que é muito menor, mas ainda assim me angustia pensar em termos de combate constante aos estereótipos, pois é isso que fazem com corpos não brancos, magros, cis, etc. 
Enfim, não consigo entender por que me permiti por tanto tempo me deixar levar por essa necessidade compulsória de estar com alguém. Estar sozinho tem sido necessário para entrar em contato com aspectos da minha personalidade que têm me ajudado a engrandecer. Estar com família e amigos tem sido prazeroso o suficiente para alimentar o vazio que, por ventura, a solidão, mesmo que escolhida, pode causar. Descobrir a minha própria força tem sido uma experiência indescritível. 

Algo interessante que aconteceu quando publiquei a primeira versão desse texto foi receber o feedback de vários tipos de pessoas que de alguma forma se sentiram representadas. Jamais contestarei o sentimento dessas pessoas. Acho que se o meu lugar de fala pôde traçar um paralelo com outras vivências, só tenho que me sentir honrado e foi um prazer poder ser sensível a outras realidades (inclusive de pessoas que apresentam privilégios com relação a mim, tipo caras brancos do sudeste). No fim das contas, esse é um apelo pra que a gente consiga pautar politicamente a solidão e seus desdobramentos nos diferentes sujeitos. "Ou soma ou some" é o que dizem e acho que me contempla. Não tô a fim de trepada casual nem de mendigar afeto. Se estar acompanhado de pessoas incríveis despido de interesse sexual é considerado estar só, estar "só" é uma benção!

#pretoegordo

2 comentários:

Paula Bolonha disse...

Minha diva!

Vou, contrariando alguns dos meus hábitos de discrição na comunicação virtual, já começar com declaração. kk

Eu nunca canso de me surpreender em como são diferentes, por vezes completamente opostas, as construções que fazemos de nós e que os outros fazem de nós. Essa coisa de "ponto de vista" é mesmo uma loucura, não?

Eu sempre penso comigo: como é que pode Túlio com baixa-estima??? Desde onde eu vejo você é uma pessoa linda,inteligente pra porra, argumentativa, criativa e crítica mas sem perder a mão ou a gentileza quando se trata de entender os processos de amadurecimento e aprendizado do outro,é daquelas pessoas que a gente gosta de estar perto porque nos deixa feliz e porque a gente aprende quando está junto. Mas como eu dizia, essa coisa de ponto de vista é uma loucura... ;)

Estou em um outro lugar de fala, de uma mulher hétero, da periferia e branca. Dentro de nossas singularidades e de uma intersecção maluca, sou privilegiada na mesma medida em que não o sou, o que temos em comum (dentre tantas coisas, claro) é partilharmos esta angustia em estar no mundo, em ser preterida, em não ser boa o bastante, gostosa o bastante, bonita o bastante, inteligente o bastante... A questão que passei a me colocar é... "o bastante" pra quem? 
Cedo eu aprendi que qualquer expectativa que eu colocasse no outro seria sinônimo de decepção. Não importa o tamanho do que eu esperava, a tendencia era dar ruim. E então eu aprendi a ser só. Foi sofrido a principio e depois deixou de ser. Deixou de ser porque descobri que ser só era também ser livre, e sentir esse gosto na boca me dava um prazer inigualável.Ser livre me fez ser dona de mim, das minhas escolhas, das minhas aceitações ou não aceitações com propriedade. No meio dessa bagunça toda o amor sexual-afetivo passou a ser um "plus" mas não mais uma necessidade . Foi só depois desse clique que conheci pessoas incríveis com as quais me relacionei deste lugar afetivo-sexual. É claro que as inseguranças ainda vêm e vão, mas tento guiar a vida tendo em mente o que eu aprendi sobre liberdade. É claro que o amor tem pra mim uma característica dúbia, me liberta e me aprisiona, mas o espírito livre costuma vencer.
Não entenda isto que escrevo aqui como uma pretensão a indicação de comportamento não, viu? Acho que cada um de nós tem seu chão pra seguir, conto isso como partilha e pra dizer que tamu junto!

Didi disse...

Túlio, eu passei esse texto para um grande amigo meu que estava com questões parecidas com as tuas e ele adorou lê-lo, por se identificar em muitos pontos. E obviamente em muitos deles eu me identifico também. Eu publiquei hoje um texto no meu blog no qual faço algumas reflexões graças a algumas coisas que tenho lido e aprendido aqui http://liquididificador.blogspot.com.br/2016/09/preto-e-gordo.html Desde já te agradeço mais uma vez pela atenção e pelos textos e o quanto é bom poder lê-los e compartilhar pensamentos a partir deles. :)